domingo, 20 de setembro de 2020

Inclusão vs Lacração- A Origem da Polêmica

Aah, merda, lá vamos nós de novo.

              Sim, eu sei, polêmico... Mas antes que decidam me cancelar, só prestem atenção.
            Uma vez, Jordan Peele disse que não escreve histórias com protagonistas brancos não porque tem algo contra, mas sim porque, por melhor que a escrita seja, dão a impressão de que já foram feitas antes.
              De certa forma, é verdade.
              Em boa parte das vezes, um autor cansou de ver o mesmo tipo de história com os mesmos tipos de personagens, quer inovar... O que não é ruim... Tem uma boa ideia... Até que tropeça feio, tropeça rude na parte da escrita, planejamento e desenvolvimento.
       Quer dizer, milênios de histórias semelhantes, e aí começam a pensar e se eu fizer uma protagonista feminina?, que tal um protagonista negro?, um herói LGBT, talvez?, etc.
              A ideia em si é ótima; a execução das mesmas que é o problema.
            Vejamos, em uma história, o/a protagonista começa como alguém que está por baixo, que tem um objetivo, se esforça para se superar cada vez mais, leva tapa na cara, mas isso o/a fortalece, motiva a seguir em frente mesmo que o mundo negue o seu potencial... E aí ele (a) derrota o vilão, cumpre o seu objetivo (nem sempre do jeito que imaginava antes), e termina satisfeito consigo mesmo, mesmo que tenha perdido algo ou alguém da qual valorizava muito, voltando para casa (ou não, dependendo da história) como uma pessoa diferente de quando tinha saído. O importante é que os personagens passem por alguma mudança interior significativa entre o começo e o fim da trama – e que tudo seja coerente, claro.
            Pode haver umas mudanças aqui e ali, mas a linha geral é a mesma, a chamada Jornada do Herói que o Joseph Campbell criou. Pode não ser muito original, mas com um bom planejamento, você pode inovar essa narrativa de forma satisfatória.
             E parece que a mensagem não é muito bem passada para certos autores.
            Querem criar uma história com um protagonista que saia do tradicional homem branco e hétero sem entenderem o que faz essas histórias serem elogiadas: o esforço que eles passam, o dilema querer vs precisar, os obstáculos...
          E essas coisas são jogadas fora em prol de personagens Mary Sue/Gary Stu, de protagonistas porcamente escritos sem o menor cuidado, pois os autores e roteiristas ficam na esperança de que as histórias vão se salvar sozinhas só porque os protagonistas são diferentes. O que não é o caso.
             Um ótimo exemplo de uma personagem feminina muito bem escrita:


Sarah Connor, da franquia O Exterminador do Futuro

As três versões da personagem, tanto nos filmes em que ela aparece quanto na série The Sarah Connor Chronicles, são escritas com maestria.

A Sarah é abordada como essa mãe que mata e morre pelo filho, que sacrificaria o que tivesse para que o John viva para liderar a Resistência contra a Skynet, como ele sempre foi predestinado a ser, e, desde o primeiro filme, mesmo que ela tenha sido a donzela em perigo nesse, ela ainda se esforçava para passar por cada obstáculo, esteve em várias situações que teria a matado se não tivesse pensado rápido, e tudo mais.

Ela nunca derrotou um Exterminador com dois socos/tiros e uma frase de efeito forçada; ela atirava para matar, e quando via que não dava certo, passava por cada situação que beirava ao extremo até chegar na solução e pronto, salvava o filho e a si própria...

Para o próximo filme fazer a mesma coisa, só que ruim, mas aí é história pra outra matéria – ou para o próximo reboot, porque vocês quase nunca dão uma chance para franquias novas, fazendo Hollywood espremer franquias já finalizadas com sequências, spin-offs e filmes solo desnecessários.

            Está bem, tem alguns que são necessários, mas vocês entenderam.

Aah, então você está dizendo que uma personagem feminina só é considerada bem escrita se for masculinizada ou uma mãe se dedicando ao filho? É isso?!!


Já acabou?

Calma, já vou chegar lá…!

Agora, um exemplo de personagem feminina que não perde a delicadeza perante ao que vem pela frente...

 

Vejam a minha heroína favorita:


Sonhadora

Uma repórter trans que segue o legado da mãe em ter o poder de sonhar com o futuro em forma de metáforas e simbolismos, que é passado de mãe para filha, o que a chocou, pois ela nunca tinha imaginado que esse poder reconhecia mulheres trans como possíveis herdeiras.

Enquanto ela expandia esse poder para, simplificando, canalizar a energia dos sonhos pelos pulsos e soltar pelas mãos como ondas de choque e cordas, aprendia a se projetar psiquicamente para outros lugares, e, claro, aprender a lutar em combates físicos com um bastão, ela se torna a Sonhadora.

E tudo o que falei não faz jus ao que acompanho em tela há quase dois anos, até agora; é incrível.

E o fato de a Nia/Sonhadora ser trans nunca a definiu como personagem, pois é o que ela faz que a define. A ação é o personagem.

Por que ela é tão incrível? Porque vemos ela passar por obstáculos emocionais, morais, físicos, se esforçar para passar por tudo, encarar o problema de frente mesmo que, por várias vezes, a sorte não esteja a favor dela, superar e viver para batalhar por mais um dia. Vimos ela começar o primeiro dia como repórter, descobrir sobre o poder que a escolheu, recusar esse poder, de início, do amadorismo com o mesmo até conseguir controlar – e tudo isso sem perder o afeto e o carinho que sente pelos amigos e família, nem deixar de ser uma mulher sensível e alegre.

Sabe quantas vezes o fato de ela ser trans é mencionado na história dela? Lembrando agora, só duas.

Uma quando a irmã da Nia ficou indignada pelo poder tê-la escolhido e gritou você nem é uma mulher de verdade!; outra quando, em um episódio, um vilão espancou uma amiga dela, também trans, e ameaçou atacar mais para cada vez que a Sonhadora aparecesse em público se ela não deixasse de ser uma heroína porque, resumindo as palavras dele, heróis deviam ser honestos, e você está aí, enganando os outros para acharem que você é essa vizinha bonitinha, mentindo sobre quem realmente é; você não devia ser um exemplo!, e isso a coloca no dilema de se ela deve passar dos limites ou não para impedir que mais uma tragédia aconteça – sempre o melhor arco de personagem, seja em livros ou filmes, séries, entre outros; ajuda os personagens a evoluírem e se transformarem do começo para o fim.

E, claro, ela é maravilhosamente interpretada pela atriz Nicole Maines, da qual eu adoraria poder conhecer pessoalmente, um dia.

 

E, abaixo, um exemplo de como abordar preconceito em uma história de forma orgânica, sem forçar a barra nem nada assim, de quando a Nia descobriu que a amiga dela foi atacada por esse vilão, demonstrando total indignação e se sentindo vulnerável pelo o que aconteceu, em uma única fala (o único momento sombrio da personagem até agora):



Ele quer que eu pare de ser uma heroína. Ele está caçando a minha comunidade para me forçar a isso. Não dá para só capturá-lo ou redimi-lo. Não há um discurso de esperança que possa melhorar isso.

 

Olha, a minha comunidade é vulnerável. Isso acontece mais do que você poderia saber. E há caras exatamente como esse canalha lá fora que querem nos machucar.

 

Eles querem que a gente se esconda, que tenhamos medo de ser quem somos. Eles querem que a gente desapareça, e isso acontece todo dia. E não somos lá uma prioridade para a polícia.

 

Então, confie em mim quando digo que sou a única protegendo essa comunidade. E agora esse canalha vai atrás deles, tentar me apagar?


...e agora, chegamos ao exemplo de uma personagem feminina mal escrita: Rey Palpati-


Oops, Rey Skywalker (sério, Kathleen Kennedy?)

Ela até começou bem, mostrando ter uma vida difícil em Jakku como catadora de lixo, trocando peças de naves da época do Império por comida, sabia lutar para sobreviver desde que foi trocada pelos pais por bebida quando ainda era criancinha... Até que, do nada, aos 17 anos, ela demonstra ter total controle de habilidades da Força que já foi estabelecido em seis filmes anteriores que tem que ser treinado desde os quatro, cinco anos para conseguir, fazia coisas dignas de Mestres Jedi da época das Guerras Clônicas, e ainda derrota o aprendiz do único Lorde Sith de toda a Galáxia na primeira vez que empunha um sabre de luz.

E isso sem contar com o fato de que depois, em seu desfecho, ela derrota um Lorde Sith recém-recuperado e com décadas de experiência, apenas imitando o Tony em Vingadores- Ultimato, só que sem o desenvolvimento feito com maestria. E a história dela ainda termina no exato ponto em que começou, só mudando a geografia.

Veem a diferença? O erro não está no gênero, está sempre em como você a desenvolve dentro da trama.

 

Sei que só foquei em falar de personagens femininas, que deixei outros tópicos de lado... Mas eu queria focar em um ponto não tão fácil nem tão difícil para dar uma ideia do que quero dizer em relação a tudo em geral.

 

O receio em desagradar o público alvo acaba fazendo com que os autores/roteiristas escrevam personagens femininas e representativos em geral de maneira tão péssima que acaba concretizando o pensamento de que protagonistas femininas só são feitas para lacrar, que personagens negros e LGBTs são criados para cobrir cota, etc... Quando na verdade, só precisam largar esse medo de fazer um personagem passar pelo seu pior momento achando que isso faria o público alvo ver aquilo como um discurso de ódio em forma de história, o que não é o caso.

Isso tudo perpetua o lema quem não lacra, não lucra, e isso entristece...

Parte da jornada, tanto a nossa própria quanto a dos personagens, é o esforço que fazemos para superar os obstáculos. E isso não devia ser diferente para personagens femininas, negros, LGBTs, etc.

Meu conselho: se a história não for 100% sobre nisso, como aquelas que tem o preconceito como tema principal da trama, não defina os personagens pelas suas características, mas sim pelas suas ações, por quem eles são como pessoa.

E nunca facilite os obstáculos em uma história. Um personagem não pode se mostrar competente, inteligente ou esforçado se você emburrecer os outros ao redor dele (estou falando com você, Elizabeth Banks; o reboot d’As Panteras tinha potencial – até que gostei, mas ainda assim, podia ter sido melhor). Toda essa falta de esforço em fazer uma ótima história sendo preenchida com a glamourização de características que já deviam ter sido normalizadas há muito tempo – e acabam não sendo por venderem essas como algo avassalador – acaba dando a impressão de que personagens femininas, negros, LGBTs e de nacionalidades e culturas que não têm tanto destaque na cultura pop não servem para nada além de tentarem embarcar na onda do mesmo tradicionalismo que eles querem evitar para se promoverem.

Tudo bem você criar personagens que possam agradar etnias específicas que não tenham tanta visibilidade na mídia, desde que não os exponha a um ridículo desnecessário em prol de uma representatividade barata que só vai prejudicar a visão que a sociedade vai ter das mesmas – ou piorar a visão negativa que já existe. Pode ser que você não possa ter uma segunda chance com isso.

 

Boa parte de vocês não sabe, mas sou o autor do livro Asas de Sangue- Alianças, da qual vou falar um pouco agora, para que assim, quem sabe, vocês possam ter uma ideia de como fazer isso da melhor maneira possível:



        A premissa de Asas de Sangue é até simples: Jesus e o Anticristo voltam em um mundo em que anjos, bruxas e vampiros se preparam para enfrentarem demônios, lobisomens e anjos decaídos no Apocalipse, quando Lucifer vai finalmente poder sair do Inferno, e agora os dois lados do conflito têm um ano e meio para estarem prontos, formando alianças, resolvendo assuntos inacabados e providenciando locais para treinamento e planejamento estratégico.


Claro, a divisão não é absoluta, nada 8 ou 80, pois tem uma demônia, dois lobisomens e uma Matilha inteira aliados ao Céu, alguns anjos decaídos que ficaram neutros sobre o assunto, vampiros, um Coven inteiro e algumas bruxas independentes aliados ao Inferno, além de ter mocinhos que fazem coisas ruins e vilões que fazem coisas boas...

Enfim, não estou aqui para me gabar sobre o quanto sou criativo (mas sou mesmo).

Aliás, o livro está à venda no site da Editora Viseu nesse link (clicando em comprar agora, você adquire o exemplar físico pelo menor preço do momento): livro Asas de Sangue- Alianças.

Até esse momento, tem quase dez críticas/resenhas sobre o livro rondando a internet, todas elogiando, só criticando um ponto ou dois.

Sabem quantas vezes uma crítica/resenha já se referiu ao gênero, etnia, nacionalidade ou sexualidade dos meus personagens? Zero.

E olha que, de quase quarenta personagens, a grande maioria são mulheres, tem três lésbicas, duas mulheres trans, uma assexual, duas bissexuais, dois gays, nunca contei quantos personagens negros tem na história nem fico catalogando nacionalidade de personagem nenhum, e por aí vai.

Por quê? Porque, até o parágrafo acima, eu nunca tinha mencionado nada disso, apenas deixei uma pista de cada uma com o passar das páginas, para quem prestar atenção poder entender na hora (e talvez vocês mesmos possam deixar essas passarem despercebidas, ou não, já que agora sabem). Mas nenhum dos meus personagens é definido por isso, pois os arcos desses personagens não se tratam de quem são, é o que eles fazem que os define.

Assim como General Morte (personagem da capa logo acima) faz de tudo para se redimir pelo o que fez no passado que a consome, ao ponto de ela até esconder o próprio nome e ser chamada pela coisa que mais teme no mundo para isso, Lilith se culpa por ter abandonado a própria filha ainda bebê com uma família que depois a torturou, Carmilla quer redenção pela vida de assassinatos que ela tinha ter causado a morte da própria filha adotiva, Megara procura se curar do trauma causado pelo abuso psicológico que sofria do pai...

Pelo o que falei acima, dá para dizer qual é a etnia ou sexualidade de cada uma? Exatamente, porque não é isso que importa nas tramas delas. E vou escrever essa saga em seis livros sempre seguindo nessa linha não deixe as características deles os definirem.

Tem um método que sempre uso para saber se estou escrevendo algum arco direito: assim que termino de escrever, repasso todo o rascunho pela cabeça com o pensamento como isso ficaria se eu trocasse o gênero do personagem? Se a história ficar ridícula ou bizarra de qualquer forma, refaço tudo na base do faz de novo, faz direito.

Mesma coisa com a etnia e sexualidade dos personagens; se trocar essas características deixar as tramas desconexas, reescrevo até ficarem muito bem definidas. Pois saber escrever tanto a trama quanto os personagens de uma forma que agrade o público alvo, mas que também atraia certo interesse de quem for de fora é a chave para se fazer uma ótima história.

Sem estereótipos nem exageros, todo e qualquer personagem fica ótimo. Pensem nisso.

 

 

Aí estão as minhas redes sociais, caso queiram deixar o seu elogio, sua crítica, começar um debate, enfim:

Instagram: @rodrick.marsmoon

Twitter: @RodrickMarsMoon

 

Obrigado por virem ao meu TED Talk. Até mais.




Nenhum comentário:

Postar um comentário