As três versões da
personagem, tanto nos filmes em que ela aparece quanto na série The Sarah
Connor Chronicles, são escritas com maestria.
A Sarah é abordada
como essa mãe que mata e morre pelo filho, que sacrificaria o que tivesse para
que o John viva para liderar a Resistência contra a Skynet, como ele sempre foi
predestinado a ser, e, desde o primeiro filme, mesmo que ela tenha sido a donzela
em perigo nesse, ela ainda se esforçava para passar por cada obstáculo, esteve
em várias situações que teria a matado se não tivesse pensado rápido, e tudo
mais.
Ela nunca derrotou
um Exterminador com dois socos/tiros e uma frase de efeito forçada; ela atirava
para matar, e quando via que não dava certo, passava por cada situação que
beirava ao extremo até chegar na solução e pronto, salvava o filho e a si própria...
Para o próximo
filme fazer a mesma coisa, só que ruim, mas aí é história pra outra matéria –
ou para o próximo reboot, porque vocês quase nunca dão uma chance para franquias
novas, fazendo Hollywood espremer franquias já finalizadas com sequências, spin-offs
e filmes solo desnecessários.
Aah, então você está dizendo que uma personagem feminina só é considerada bem escrita se for masculinizada ou uma mãe se dedicando ao filho? É isso?!!
Calma, já vou
chegar lá…!
Agora, um exemplo
de personagem feminina que não perde a delicadeza perante ao que vem pela
frente...
Vejam a minha heroína favorita:
Uma repórter trans
que segue o legado da mãe em ter o poder de sonhar com o futuro em forma de
metáforas e simbolismos, que é passado de mãe para filha, o que a chocou, pois
ela nunca tinha imaginado que esse poder reconhecia mulheres trans como possíveis
herdeiras.
Enquanto ela expandia
esse poder para, simplificando, canalizar a energia dos sonhos pelos pulsos e
soltar pelas mãos como ondas de choque e cordas, aprendia a se projetar
psiquicamente para outros lugares, e, claro, aprender a lutar em combates
físicos com um bastão, ela se torna a Sonhadora.
E tudo o que falei
não faz jus ao que acompanho em tela há quase dois anos, até agora; é incrível.
E o fato de a
Nia/Sonhadora ser trans nunca a definiu como personagem, pois é o que ela faz
que a define. A ação é o personagem.
Por que ela é tão
incrível? Porque vemos ela passar por obstáculos emocionais, morais, físicos,
se esforçar para passar por tudo, encarar o problema de frente mesmo que, por
várias vezes, a sorte não esteja a favor dela, superar e viver para batalhar
por mais um dia. Vimos ela começar o primeiro dia como repórter, descobrir
sobre o poder que a escolheu, recusar esse poder, de início, do amadorismo com
o mesmo até conseguir controlar – e tudo isso sem perder o afeto e o carinho
que sente pelos amigos e família, nem deixar de ser uma mulher sensível e alegre.
Sabe quantas vezes
o fato de ela ser trans é mencionado na história dela? Lembrando agora, só duas.
Uma quando a irmã
da Nia ficou indignada pelo poder tê-la escolhido e gritou você nem é uma
mulher de verdade!; outra quando, em um episódio, um vilão espancou uma amiga
dela, também trans, e ameaçou atacar mais para cada vez que a Sonhadora aparecesse
em público se ela não deixasse de ser uma heroína porque, resumindo as palavras
dele, heróis deviam ser honestos, e você está aí, enganando os outros para
acharem que você é essa vizinha bonitinha, mentindo sobre quem realmente é; você
não devia ser um exemplo!, e isso a coloca no dilema de se ela deve passar
dos limites ou não para impedir que mais uma tragédia aconteça – sempre o
melhor arco de personagem, seja em livros ou filmes, séries, entre outros;
ajuda os personagens a evoluírem e se transformarem do começo para o fim.
E, claro, ela é
maravilhosamente interpretada pela atriz Nicole Maines, da qual eu adoraria
poder conhecer pessoalmente, um dia.
E, abaixo, um exemplo de como abordar preconceito em uma história de forma orgânica, sem forçar a barra nem nada assim, de quando a Nia descobriu que a amiga dela foi atacada por esse vilão, demonstrando total indignação e se sentindo vulnerável pelo o que aconteceu, em uma única fala (o único momento sombrio da personagem até agora):
![]() |
Ele quer que eu
pare de ser uma heroína. Ele está caçando a minha comunidade para me forçar a
isso. Não dá para só capturá-lo ou redimi-lo. Não há um discurso de esperança
que possa melhorar isso.
Olha, a minha
comunidade é vulnerável. Isso acontece mais do que você poderia saber. E há
caras exatamente como esse canalha lá fora que querem nos machucar.
Eles querem que a
gente se esconda, que tenhamos medo de ser quem somos. Eles querem que a gente
desapareça, e isso acontece todo dia. E não somos lá uma prioridade para a polícia.
Então, confie em
mim quando digo que sou a única protegendo essa comunidade. E agora esse
canalha vai atrás deles, tentar me apagar?
...e agora,
chegamos ao exemplo de uma personagem feminina mal escrita: Rey Palpati-
![]() |
| Oops, Rey Skywalker (sério, Kathleen Kennedy?) |
Ela até começou
bem, mostrando ter uma vida difícil em Jakku como catadora de lixo, trocando
peças de naves da época do Império por comida, sabia lutar para sobreviver
desde que foi trocada pelos pais por bebida quando ainda era criancinha... Até
que, do nada, aos 17 anos, ela demonstra ter total controle de habilidades da
Força que já foi estabelecido em seis filmes anteriores que tem que ser
treinado desde os quatro, cinco anos para conseguir, fazia coisas dignas de
Mestres Jedi da época das Guerras Clônicas, e ainda derrota o aprendiz do único
Lorde Sith de toda a Galáxia na primeira vez que empunha um sabre de luz.
E isso sem contar
com o fato de que depois, em seu desfecho, ela derrota um Lorde Sith
recém-recuperado e com décadas de experiência, apenas imitando o Tony em Vingadores-
Ultimato, só que sem o desenvolvimento feito com maestria. E a história dela
ainda termina no exato ponto em que começou, só mudando a geografia.
Veem a diferença?
O erro não está no gênero, está sempre em como você a desenvolve dentro da
trama.
Sei que só foquei
em falar de personagens femininas, que deixei outros tópicos de lado... Mas eu
queria focar em um ponto não tão fácil nem tão difícil para dar uma ideia do
que quero dizer em relação a tudo em geral.
O receio em
desagradar o público alvo acaba fazendo com que os autores/roteiristas
escrevam personagens femininas e representativos em geral de maneira tão péssima
que acaba concretizando o pensamento de que protagonistas femininas só são
feitas para lacrar, que personagens negros e LGBTs são criados para cobrir
cota, etc... Quando na verdade, só precisam largar esse medo de fazer um
personagem passar pelo seu pior momento achando que isso faria o público alvo
ver aquilo como um discurso de ódio em forma de história, o que não é o caso.
Isso tudo perpetua
o lema quem não lacra, não lucra, e isso entristece...
Parte da jornada,
tanto a nossa própria quanto a dos personagens, é o esforço que fazemos para
superar os obstáculos. E isso não devia ser diferente para personagens femininas,
negros, LGBTs, etc.
Meu conselho: se a
história não for 100% sobre nisso, como aquelas que tem o preconceito como tema
principal da trama, não defina os personagens pelas suas características, mas
sim pelas suas ações, por quem eles são como pessoa.
E nunca facilite
os obstáculos em uma história. Um personagem não pode se mostrar competente, inteligente
ou esforçado se você emburrecer os outros ao redor dele (estou falando com
você, Elizabeth Banks; o reboot d’As Panteras tinha potencial – até que gostei,
mas ainda assim, podia ter sido melhor). Toda essa falta de esforço em fazer
uma ótima história sendo preenchida com a glamourização de características que
já deviam ter sido normalizadas há muito tempo – e acabam não sendo por
venderem essas como algo avassalador – acaba dando a impressão de que
personagens femininas, negros, LGBTs e de nacionalidades e culturas que não têm
tanto destaque na cultura pop não servem para nada além de tentarem embarcar na
onda do mesmo tradicionalismo que eles querem evitar para se promoverem.
Tudo bem você
criar personagens que possam agradar etnias específicas que não tenham tanta
visibilidade na mídia, desde que não os exponha a um ridículo desnecessário em
prol de uma representatividade barata que só vai prejudicar a visão que a
sociedade vai ter das mesmas – ou piorar a visão negativa que já existe. Pode
ser que você não possa ter uma segunda chance com isso.
Boa parte de vocês
não sabe, mas sou o autor do livro Asas de Sangue- Alianças, da qual vou falar
um pouco agora, para que assim, quem sabe, vocês possam ter uma ideia de como
fazer isso da melhor maneira possível:
A premissa de Asas de Sangue é até simples: Jesus e o Anticristo voltam em um mundo em que anjos, bruxas e vampiros se preparam para enfrentarem demônios, lobisomens e anjos decaídos no Apocalipse, quando Lucifer vai finalmente poder sair do Inferno, e agora os dois lados do conflito têm um ano e meio para estarem prontos, formando alianças, resolvendo assuntos inacabados e providenciando locais para treinamento e planejamento estratégico.
Claro, a divisão não
é absoluta, nada 8 ou 80, pois tem uma demônia, dois lobisomens e uma
Matilha inteira aliados ao Céu, alguns anjos decaídos que ficaram neutros sobre o
assunto, vampiros, um Coven inteiro e algumas bruxas independentes aliados ao
Inferno, além de ter mocinhos que fazem coisas ruins e vilões que fazem coisas
boas...
Enfim, não estou
aqui para me gabar sobre o quanto sou criativo (mas sou mesmo).
Aliás, o livro está à venda no site da Editora Viseu nesse link (clicando em comprar agora, você adquire o exemplar físico pelo menor preço do momento): livro Asas de Sangue- Alianças.
Até esse momento,
tem quase dez críticas/resenhas sobre o livro rondando a internet, todas
elogiando, só criticando um ponto ou dois.
Sabem quantas
vezes uma crítica/resenha já se referiu ao gênero, etnia, nacionalidade ou
sexualidade dos meus personagens? Zero.
E olha que, de
quase quarenta personagens, a grande maioria são mulheres, tem três lésbicas,
duas mulheres trans, uma assexual, duas bissexuais, dois gays, nunca contei
quantos personagens negros tem na história nem fico catalogando nacionalidade
de personagem nenhum, e por aí vai.
Por quê? Porque,
até o parágrafo acima, eu nunca tinha mencionado nada disso, apenas deixei uma
pista de cada uma com o passar das páginas, para quem prestar atenção poder
entender na hora (e talvez vocês mesmos possam deixar essas passarem despercebidas,
ou não, já que agora sabem). Mas nenhum dos meus personagens é definido por
isso, pois os arcos desses personagens não se tratam de quem são, é o que eles
fazem que os define.
Assim como General
Morte (personagem da capa logo acima) faz de tudo para se redimir pelo o que fez no passado
que a consome, ao ponto de ela até esconder o próprio nome e ser chamada pela
coisa que mais teme no mundo para isso, Lilith se culpa por ter abandonado a
própria filha ainda bebê com uma família que depois a torturou, Carmilla quer redenção
pela vida de assassinatos que ela tinha ter causado a morte da própria filha
adotiva, Megara procura se curar do trauma causado pelo abuso psicológico que
sofria do pai...
Pelo o que falei
acima, dá para dizer qual é a etnia ou sexualidade de cada uma? Exatamente,
porque não é isso que importa nas tramas delas. E vou escrever essa saga em
seis livros sempre seguindo nessa linha não deixe as características deles
os definirem.
Tem um método que
sempre uso para saber se estou escrevendo algum arco direito: assim que
termino de escrever, repasso todo o rascunho pela cabeça com o pensamento como
isso ficaria se eu trocasse o gênero do personagem? Se a história ficar
ridícula ou bizarra de qualquer forma, refaço tudo na base do faz de novo,
faz direito.
Mesma coisa com a
etnia e sexualidade dos personagens; se trocar essas características deixar as
tramas desconexas, reescrevo até ficarem muito bem definidas. Pois saber
escrever tanto a trama quanto os personagens de uma forma que agrade o público
alvo, mas que também atraia certo interesse de quem for de fora é a chave para
se fazer uma ótima história.
Sem estereótipos
nem exageros, todo e qualquer personagem fica ótimo. Pensem nisso.
Aí
estão as minhas redes sociais, caso queiram deixar o seu elogio, sua crítica,
começar um debate, enfim:
Instagram:
@rodrick.marsmoon
Twitter:
@RodrickMarsMoon
Obrigado
por virem ao meu TED Talk. Até mais.








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